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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

10 Razões Inegáveis Para Amar Poesia


Lá no céu
Deixam de cantar,
Os anjinhos
Foram se deitar,
Mamãezinha
Precisa descansar
Dorme, anjo
Papai vai lhe ninar

“Acalanto” – Dorival Caymmi


A maior parte de nós nasceu e cresceu sob o acalanto materno. Às vezes, ainda na barriga tivemos sorte de ouvir alguém cantando em versos. Para nosso cérebro em formação, a canção, seu ritmo, seu embalo, sua melodia trazia paz…

Muitos estudos abordam a importância da comunicação com o bebê em todas as fases. A poesia das canções de ninar talvez seja a mais evidente de todas. Trouxe esse conceito universal da infância de todos nós para falar um pouco sobre a poesia hoje. Por onde anda a poesia? Por que vale a pena continuar amando poesia em pleno século XXI?

10 Razões para Amar Poesia:


1. Ela está presentes nas músicas, contos e filmes

Já nascemos familiarizados com a poesia em forma de canção de ninar. E seguimos a vida gostando de poesia cantada, sem nem perceber... A música possui grandes composições que são verdadeiras poesias!

Por exemplo, existe uma trio de irmãos cantores que possuem uma obra muito rica em linguagem poética. Pelo som moderno, muitos não reconhecem como tal, mas amam mesmo assim. Falo dos irmãos Melim:

“Pra quê razão, se ela não pode dar asas
E eu amo um anjo?
Sem direção, já andei por tanta estrada
Mas você chegou voando”

Cabelo de Anjo - Melim


“Somos verso e poesia
Outono e ventania
Praia e carioca
Somos pão e padaria
Piano e melodia
Filme e pipoca ah
De dois corações um só se fez
Um que vale mais que dois ou três”

Dois Corações - Melim


Existe canção mais bela que essas em forma de poesia, tão sensíveis, tão belas? Outra cantora, que se mostra uma grande compositora na carreira solo: Sandy.



"Só com você desço do salto
Tiro a maquiagem
Elevo a minha voz
Baixo o tom do meu português

Posso me revelar
Falha e imperfeita
E confiar nas minhas glórias
E assim me faço inteira"


Salto - Sandy e Lucas Lima


"Sabe, bem
Falar pro amor de agora que acabou
Que foi o tempo e que a Lua virou
Me dói de um tanto sem tamanho

O vazio é difícil acostumar
Ainda bem que não hesitei em te abraçar
O nó afrouxa até a mão querer soltar
Mas da tua mão eu não larguei até voltar
Pra direção da tua calma, ah-ah-ah-ah"

Pra Me Refazer - Sandy, Lucas Lima e Anavitória


Também dá para citar dois filmes poéticos:



The Greatest Showman (O Rei do Show na versão para o Brasil)


Estrelado por Hugh Jackman (o eterno Wolverine) e o Zac Efron (eterno Troy Bolton), é um musical que a própria crítica não apostou, mas cujo enredo era de uma poesia encantadora e fascinante. Fora a fotografia e a trilha sonora incrível.

UP - Altas Aventuras


É uma animação da Disney produzida pelos estúdios Pixar. Conta a história de um idoso viúvo que sonha em se mudar para o Paraíso das Cachoeiras, mas vive várias aventuras junto com um garoto escoteiro, uma ave tropical e um cachorro Golden Retriever falante. Toda a história, mesmo com as partes cômicas é de uma poesia serena, principalmente nas cenas onde Carl (o idoso) se lembra da finada esposa Ellie.

2. A Poesia acalma

Não só as canções poéticas e os filmes acalmam. A leitura de uma poesia, ou várias delas também. A poesia é compassada, suas estrofes são o espaço para respirar, e refletir sobre a vida. Mário Quintana dizia que os espaços em branco nos livros era para as crianças desenharem. É bem isso, nos intervalos de um verso e outro há energia para vida.

3. Poesia é uma forma de despertar o amor pela língua e suas regras gramaticais

Ler e em especial escrever poesias, requer uma dedicação sublime. É uma relação mágica com as palavras e suas sílabas. Rebeldes, não se encaixam no verso quando queremos. Exigem do poeta força de vontade, porque o verso sai com a forma que o próprio poema se impos... à revelia do seu autor...

4. O texto poético abre as portas para a imaginação

Tentar encontrar razão num texto poético é igual enxugar gelo. A poesia é uma obra aberta, que muitas vezes escapa às intenções do autor, quiçá do leitor. Não quer dizer que um poema não tenha pé nem cabeça. Poesia, bem como a música, tem sentido, mas que ultrapassa a lógica. Não é um teorema de uma resposta só. Depende da emoção de quem lê. É preciso ter imaginação para dar um sabor único ao poema.

5. Estimula à interpretação e a reflexão

Por ter crescido submersa em poesias, consigo captar a linguagem figurada nas redes sociais. Os twitteiros padecem bastante com a dificuldade de entender expressões com sentido figurado. Metáforas e ironias são as que geram mais polêmicas nessa rede social. Por óbvio que pareça muitas vezes falta repertório para quem lê reconhecer a mensagem.

6. Afeta o lado direito do cérebro e desperta emoções

Nosso cérebro é divido entre o lado racional (esquerdo) e o criativo (direito). A matemática, os jogos estimula o lado esquerdo. A poesia, a música, as artes em geral estimulam o lado direito. A poesia pode estimular os dois lados para quem aprende a escrever com métricas. Incluir versos numa fórmula métrica com sílabas marcadas e acentuação definida não é fácil!

7. Enriquece o seu vocabulário

A leitura produz ganhos no repertório para entender linguagens e para se expressar também. Um poema usa palavras que não são comuns, mas podem ser adaptadas. Com seus sinônimos, podem ser usadas em qualquer outra forma de produção escrita.

8. Favorece a conexão entre os seres humanos, contra mecanização das relações humanas

Passou na TV uma novela muito poética chamada Bonsucesso. Antonio Fagundes era Alberto, que gostava de ler para a neta e suas visitas. Outra novela Totalmente Demais, tinha Arthur (Fábio Assunção) apaixonado por ler poesias.

Esses dois personagens ilustram como a leitura em geral pode sensibilizar o ser humano. Lidamos com aplicativos o tempo todo, e olhamos pouco nos olhos. Um poema expressa toda a profundidade humana que não cabe num “textão” de app de conversa.

9. A Poesia não se limita a realidade

Deixe que os telejornais falem a realidade, embora nem esses tenha compromisso com ela. A Poesia, como o filme ou a novela, usam da matéria prima humana, mas pode ir além. Podem ir para o céu ou para o inferno (Dante que o diga). Dá para ir onde a imaginação conseguir levar. Deixe sua imaginação ir além do a internet te deixa alcançar.

10. É fruto da criatividade espontânea

Como disse acima a poesia escapa das intenções do próprio autor! Isso que a torna mais bela. Começa-se querendo dar vida a uma ideia e compõe-se outra. Os versos tem vida própria, só precisamos abastecer a mente de sonhos, leituras e amores.

Ame-a!

Meus melhores poemas ainda não foram publicados. Espero a melhor hora, ou coragem de expor por onde andava minha imaginação… É possível que publique algumas delas em breve. Até lá, estou só me regalando com obras incríveis deixadas por grandes poetas e poetisas e escrevendo outras coisas. Não creio que existirá no futuro uma galeria renovada de grandes poetas famosos. Mas não precisamos. Não se faz poesia para ganhar dinheiro ou fama. Poesia alimenta a alma. Uma alma satisfeita revigora o corpo e abre a mente para diversos destinos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Poesia explicada em 280 caracteres



Poesia é a arte de compor em versos;

Virada a página, nada sobra!

A vida sem poesia é o inverso

Da base que sustenta uma obra.


Poesia é arte, é compor canções

É viver tudo que a vida cobra

Sem nunca dizer suas intenções.

É o estar-se feliz com o que sobra


É o viver de emoções.


quarta-feira, 3 de junho de 2020

Sem pensar


Respire. Não pense. O corpo reflete os nossos pensamentos.

Aprender poesia foi um grande refúgio quando eu precisava dar ritmo, ou descanso para meus pensamentos. Muitos diziam que minhas poesias eram tristes. Elas me retratavam melhor que fotografias, onde eu estava quase sempre sorrindo.

Poesias tem pausas. Descobri há poucos dias que elas têm o mesmo efeito da respiração para quebrar o estado das coisas; sair de uma tristeza imensa, do medo e oxigenar o cérebro. Minhas poesias não me davam limites. Ao contrário, elas me davam asas. Elas me diziam “não pense, lapide os versos depois; apenas escreva”:


LUZ

Se o coração gritar,

Respira.

Se a vida faltar,

Inspira.

Se o homem suprimir,

Escreva.

Se as linhas se esconderem

Reflita.

Se uma luz surgir, siga-a.

Se uma voz calar,

Agradeça, e

Se o verso libertar-se,

Esqueça!



E assim eu segui. Ia guardando uma palavra aqui, uma ideia ali, uma frase, às vezes um verso, e num certo dia saía o poema inteiro. Bom ou ruim, não importava. Tenho poesias que me encantam e tenho muitas coisas bobas, mas que guardam a memória daquele momento.

Há poucos dias, reencontrei-me com os velhos conselhos das minhas poesias. Não em forma de versos, mas em forma de afinidade. Temos afinidades com quem faz fronteira conosco, quem circula dentro dos mesmos limites. Não físicos, elas podem estar muito distantes, em outra cidade, estado ou país, ao passo que na mesma casa podemos conviver como se estivéssemos em mundos distantes!

Temos afinidade com quem fala a mesma língua, não o idioma, a língua do coração. Aquelas coisas que são mais caras à nossa emoção. E essas pessoas não precisam ser iguais, afinidade não é igualdade, podemos ter afinidades com pessoas extremamente diferentes, mas que convergem em algum ponto com nossos princípios, valores, e sonhos mais ternos.

Tenho afinidade com pessoas que não gostei ao primeiro contato. E aprendi que a primeira impressão não precisa ficar se não quisermos que ela fique. Nosso coração é como uma sala de estar, podemos deixar ficar quem faz bem hoje e esquecer o ontem.

Os velhos conselhos me reencontraram desprevenida. Há muitos horizontes que a menina poetisa jamais imaginou e outros tantos que ela já tinha previsto, mesmo que fosse apenas um instante imaginado. Estou assustada. Só me resta calar os pensamentos e me deixar levar!


quarta-feira, 27 de maio de 2020

Grades



Grades não protegem. Grades aprisionam.

Nunca gostei de grades. Quando ainda pequena colocaram janelas com grades em casa eu me senti muito mal. Um bicho de zoológico, um pássaro na gaiola, uma criminosa. Pensei que se um bandido entrasse pela porta da frente não daria nem para fugir pela janela. Eu não pensava que a grade impediria alguém de entrar, só que me impediria de sair! Um bandido determinado a entrar conseguiria, pensava. Com as armas certas ele poderia nos render, apesar das grades.

Esse sentimento de estar atrás das grades sem a posse das chaves me acompanhou por muito tempo. Até que me acomodei ao ambiente, e era como se as grades fizessem parte de mim. Qualquer um que tentasse arrancá-las me machucaria. Por muito tempo vivendo daquela forma qualquer tentativa, ainda que remota (e sempre eram remotas) de me tirar dali, ou mostrar motivos para sair me assustavam. Era o que eu mais queria, mas eu não podia alcançar.



O PASSARINHO

O passarinho engaiolado

Condor, não sabe mais voar,

Pia triste já domesticado,

Predador, tão longe do seu habitat;



Quem sabe do seu sofrimento?

Das canções desse prisioneiro,

Que vem falando de um amor

Que nem sonhou no mundo inteiro!



Que importa que teu canto fale

Das coisas que não conhecera,

Das joias que o destino embala,



Se o que lhe resta dessa vida

Não é nenhum rabo de sereia,

Nem estas conchas retorcidas!



Nos últimos tempos eu tinha perdido de vista essa perspectiva de estar atrás das grades; e olha que as grades continuam nas janelas! Até que eu ouvi uma expressão assustadora: “você precisa se entregar”. Era como se um bandido estivesse dizendo: “deixa eu entrar, se renda”. E eu já sabia que não dava para sair pela janela. Mas a porta ainda estava fechada. Será que ele – o bandido, está armado? Imaginei. “Abra”. Ao contrário do que imaginei, meu primeiro impulso não foi fugir. De repente, pode ser que valha a pena a dor de arrancar as grades. Além de mim, tem mais gente aprisionado por elas, se eu deixar alguém arrancá-las não serei a única a poder voar...

Dizem que passarinho de gaiola desaprende a voar. Será? Lá fora tem um bandido ou um caçador? Será que dá para negociar? Mas eu não quero negociar. Eu quero abrir a porta, ou arrancar as grades das janelas, vale até derrubar alguns tijolos da parede. Mas e se a pessoa à porta for má? Existe algo pior que estar preso aqui dentro? Há algoz pior que nossos medos? Do que eu tenho medo? Tenho medo de pensar nos próprios medos...

Ok. Eu me rendo, mas como se faz?



Texto baseado em fatos quase reais. 


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Onde foi parar a Poesia?



Não sei por que motivo, razão, circunstância resolvi perguntar ao Google: onde foi parar a Poesia? E sabe o que ele me respondeu? “Patrícia Poeta foi irônica ao reverenciar William Bonner“. Foi aí que percebi que o problema da poesia é muito mais crítico, pois nem os algoritmos da web sabem do que se trata, e “poeta” é apenas sobrenome de jornalista da TV Globo.

Já contei aqui neste blog inúmeras vezes minha relação com a poesia, e por isso mesmo muito me dói ver a relação das pessoas modernas com essa arte. Ou a falta de. Nesse mesmo período do ano de 1922 estava ocorrendo em São Paulo a semana da Arte Moderna, onde diversos artistas plásticos, escritores, poetas, com o apoio do governo divulgaram suas obras com uma linguagem mais livre, menos conservadora, renovada.

Dali em diante a linguagem foi se libertando mais e mais, que abandonou até a correta grafia, algumas sílabas revoltaram-se contra suas vogais (se é q vc me entende), as rimas atuais mais citadas são falar com blá, blá, blá; esquece com chiclete, motel com infiel (temas da atualidade); maconha com onda (ou vergonha...), rimas cantadas nas chamadas “músicas”, sim por que poesia escrita pela simples arte não existe mais, nessa rotina on line resumida a mais leve lembrança do que um dia foi poesia fica nas canções.

Ainda existem algumas obras musicais dignas de contemplação, como as canções de Roberto Carlos, Arnaldo Antunes, Nando Reis, Marisa Monte. Victor e Leo no ramo sertanejo também possuem algumas poesias, mas não as que fazem sucesso nas rádios. Existe ocasião para tudo. Há espaço para o blá, blá, blá musical, justamente por que não se busca contemplação, intuição, sensibilidade, sentimento quando se ouve certas músicas. Mas não deixa de causar certo espanto e nostalgia.


The Thinker Figma Figure






domingo, 20 de novembro de 2016

Meu Público


Lembro-me bem quando comecei a escrever blogs, parecia criança com brinquedo novo, pinto no lixo, cheia de ideias e ao mesmo tempo sem a menor noção de qual seria o impacto de tudo aquilo. Sempre gostei muito de escrever, isso já seria um bom pretexto para começar, mas alguém se interessaria pelo que eu tinha a dizer? Era um risco, e a bem da verdade eu não estava pensando nisso. O blog Medos Privados em Lugares Públicos não estava no início focado no público, mas nos medos. Era uma espécie de terapia ocupacional, mas se eu sentisse que não teria nada de útil a dizer eu não faria.

Os blogs são um canal para divulgação de ideias sem o caráter jornalístico, já me perguntaram se eu queria ser jornalista, e a simples ideia de ter que escrever uma pauta, a obrigatoriedade de caçar um tema para uma coluna me deixa irritada. A liberdade do blog não profissional é maravilhosa e escrever sempre foi o meu maior prazer.

Os bloggers acabaram profissionalizando o canal, por enquanto fico na minha, exatamente para não me comprometer com um público que eu não terei tempo para atender como merecem e nem com a qualidade que eu me exigiria. Sou poetisa, minha criatividade vem da inspiração e não da obrigação. Inspiração não se inventa.

Como o hábito da leitura de textos grandes diminuiu já existem os vloglers, que postam vídeos ao invés de textos, essa eu deixo para minha xará Camila Coelho ou meu irmão que já se arriscou nos videocasts do Blog do Rodman. Por enquanto, ainda tenho meu público que me lê e me segue, então vou considerar que meu time ainda está ganhando.

Agora diante de mais de cem mil visualizações percebo que não tenho mais tantos medos diante de mim, e agora tal é minha dedicação que separei os assuntos em três blogs diferentes. Aqui mantenho minhas reflexões do dia a dia, televisão, cinema, livros, opinião pública, política. No blog Diário Fragmentado falo sobre fé cristã, e o mais novo e que tem me surpreendido o interesse é o Chá para todas as horas, cujo nome é trocadilho com a sigla para Competências, Habilidades e Atitudes, e fala sobre assuntos profissionais. Com a separação fica fácil encontrar o assunto que mais interessa, fica mais organizado!

Quando comecei não imaginava o alcance de toda a história. Nunca imaginei que uma das fontes dos meus leitores seria o blog de uma amiga que mora na Alemanha! Fico muito feliz não só pelos blogs parceiros como pelo público que chega até mim pelo Facebook, Twitter, Google, Linkedin, é uma experiência muito bacana. Que venham as próximas cem mil visualizações!

sábado, 13 de agosto de 2016

Rosa Apaixonada




Eu sou feita da terra. Apaixonada!

Fui rosa pura, alegre e florescida

Que adormeceu nos solos da seara.

Meus espinhos de rosa são as feridas

Que cravei nos corações dos amigos

E minha alegria eu enterrei

Nas covas do meu sorriso.

Da rosa ainda me resta...

Que assombro: a pureza!

E alguns traços de jovial beleza.

Cada ciclo que me embala recorda

Deste fértil terreno que é efêmero,

Que um dia irá me deixar

Secar em desespero!

E eu que sou rosa pura, apaixonada,

Dos meus encantos nada saberei,

Terei só lembranças de quem amei

E os olhos rasos d’água.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A menina que roubava livros - Ilsa Hermann


Nos meus tempos de escola o acesso a livros não era tão fácil como atualmente. Vejo cada obra espetacular sendo distribuída aos alunos, então lamento muito já ter completado o ensino médio antes dessa maré de boa sorte. 

Dói tanto quando vejo esses mesmos livros jogados no lixo, nas ruas, sem a menor consideração daqueles que receberam e são ignorantes demais para notar a riqueza que menosprezou. Isso me faz sentir menos culpada ou menos envergonhada por num passado tão, tão distante... ter me apropriado inadequadamente de livros da biblioteca da escola, o que me enquadra na categoria de Liesel Meminger. 

Livros. Ler e escrever, desde que fui alfabetizada, tornou-se minha vida, sempre lia, à vezes escondida porque irritava alguma pessoa a minha volta. Liesel  Meminger era uma menina sofrida pela lembrança da morte do irmão e ausência da mãe biológica, o meu sofrimento era a ausência de mim mesmo. 





Encontrei-me nas palavras, nos versos, nos diários, nos símbolos. Em a menina que roubava livros algumas pessoas alimentaram esse dom em Liesel: Hans, Max, e uma em especial a esse post: Ilsa Hermann. Claro que sempre há aquela pessoa que batalha para que tudo dê errado, na melhor das intenções, mas cheio de fel no coração, como fazia Rosa Hubermann, que não incentivava a leitura da menina, que acabava por fazê-lo a noite com o pai enquanto a mãe roncava.

Ilsa Hermann, a mulher do prefeito possuía uma biblioteca variada, a qual diponibilizou para Liesel usufruir. Após um mal entendido entre as duas, porém, Liesel puniu-se não visitando mais a biblioteca, mas a roubadora de livros não resistiu quando notou certa facilidade em adentrar o local por meios escusos. Todavia era Ilsa que em silêncio, facilitava seu acesso e seus furtos, e foi ela quem presenteou Liesel com o caderno de capa preta onde a menina escreveria sua história.

Em minha vida, quem me deu o livro que definiria meu destino foi a diretora da escola onde eu estudava, D. Conceição, no ano de 1996 (ou 1997. Pois é, o tempo passa!). O livro era uma antologia poética de Mario Quintana.






Pelos versos do poeta gaúcho fui aprendendo a compor meus próprios versos, e poeta precisa de conteúdo e inspiração, e para tanto me vali de mais livros, dessa vez lícitos, e muitos sonhos inspiradores, meu portfólio poético possui 300 poesias. É pouco, mas optei pela qualidade, posso dizer que é pouco, mas bem feito, embora ainda aguarde alguma devolutiva dos que leram a obra completa.

A morte (no conto de Zusak) pegou o livro de Liesel, guardou e o olhou milhares de vezes ao longo dos anos. Até a morte se comove com uma menina que escreve livros, ou como o próprio autor diz: "até a morte tem coração". Se você escreve e alguém lhe diz que é besteira, a morte não concorda, e você não vai querer discutir com ela! 

Acredito que a morte e as palavras têm uma relação estreita, tanto que a obra mais brilhante do ex-presidente Getúlia Vargas, foi sua carta póstuma: "saio da vida para entrar na história!"  

(Considerando os devaneios de um suicída e a licença poética do termo "brilhante")




segunda-feira, 19 de abril de 2010

Às voltas com a Língua Portuguesa


'As jibóias engolem, sem mastigar, a presa inteira. em seguida, não podem mover-se e dormem os seis meses da digestão.' Refleti muito então sobre as aventuras da selva, e fiz meu primeiro desenho. Meu desenho número 1 foi assim:
 



Mostrei minha obra-prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo.Responderam-me: "Por que é que um chapéu faria medo?" 

Meu desenho não representava um chapéu. Mas uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. (...) 

Meu desenho número 2 foi assim:



As pessoas grandes aconselharam-me a deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas,e dedicar-me à geografia, à história, à gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplêndida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2."

"O Pequeno Príncipe" Antoine de Saint Exupéry


Corrí um risco semelhante com a minha primeira poesia:


Quando fores dormir
Sonharás comigo
E neste sonho mostrarei
Que não há nenhum perigo


Que por mais perigoso que seja
Me amar é tudo que você deseja


Quando acordares
Seu primeiro pensamento será eu
Pensará também que
Todo seu medo se perdeu


Se perdeu por nossas entranhas
E não sobreviveu a nossa façanhas


Quando saíres então
Para me encontra
Me acharás no campo do amor
Prontinha para te amar


E assim sempre estarei
Em todos os momentos de sua vida
E para sempre serei sua doce querida



Quando terminei este conjunto de palavras rimadas, senti-me a mais nova revelação da literatura poética brasileira, uma verdadeira descendente de Cecília Meirelles! (Minha avó se chamava Cecília, mas não a Meirelles...) Era em tese minha primeira poesia, após outras tentativas.


Me lembro bem, estava com 14 anos de idade, quando confiante, fui mostrar minha obra para minha professora de língua portuguesa:


- Huum... - Ela leu rapidamente. - Muito Boa!


Lembro também que ela fez uma objeção referente ao diminutivo "prontinha" da penúltima estrofe. Eu exultei de felicidade, afinal "o único defeito da minha poesia era um diminutivo mal empregado!"

Ledo engano! Anos mais tarde pude pilhar a professora em seu ardil. Quando passei a cultivar a autocrítica, ou quando pela prática, aprendi a escrever versos melhores, (embora sempre possa melhorar!) pude perceber que de "muito boa", minha singela poesia não tinha nada!

Tinha sim, sérios problemas de concordância pronominal, ausência total de métrica e outras carências de estilo. Mas eu era uma adolescente! A minha ignorância sobre certas coisas era totalmente compreensível, já a professora...

Pergunto-me até onde ela agiu pedagogicamente correto? Até onde tinha consciência de seus atos? Se me conheço bem, uma crítica certamente me desencorajaria a escrever o que quer que fosse. Até minha assinatura eu hesitaria antes de fazê-la! Assim como o narrador de "O Pequeno Príncipe" fora desencorajado de sua carreira de pintor, pelas críticas e incompreensão dos adultos, comigo não seria diferente!

A princípio, parece que eu deveria dar meus parabéns à professora; no entanto, não tenho total garantia de sua honestidade. Eu a considerava a melhor em gramática, e minha poesia era um pretexto e tanto pra ela me apresentar uma série de regras da Língua Portuguesa (Ó Codigo Secreto!). E não foi o que aconteceu. Só porque não estava no currículo, ou porque o tema não havia sido discutido no conselho de classes, eu não merecia uma atenção extra, tendo solicitado? Afinal, professores servem para ensinar, ou não?

Muito do que eu sei, aprendi por meus próprios esforços, e recentemente aprendi mais algumas regras "sugeridas" por um conhecido formado em Letras, que gentilmente me perguntou se eu conhecia o recurso da licença poética... Ou seja, se não era licença poética, era ignorância mesmo!

Foi-me dito mais que isto. Recebi sutilmente instruções de pesquisa que sequer soou como correção ou crítica, mas como uma menina aplicada que sou, pesquisei e me flagrei em pequenos erros, que até então nenhum mestre havia tido a dignidade de me alertar.

Não fosse por este episódio, eu hoje não desconfiaria das boas intenções da professora. Ela quis me poupar de críticas ou apenas se livrar de mim?


Post scriptum:
"L'Enfer est plein de bonnes volonte" / O inferno está cheio de boas intenções.
 São Bernardo