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quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Resenha do Livro Mulheres que Correm com Lobos


Depois de me encantar com o livro A Ciranda das Mulheres Sábias, de Clarissa Pinkola Estés, resolvi me dedicar a leitura de seu outro livro: Mulheres que Correm com Lobos.

As duas leituras foram gratas surpresa! Não dava nada por nenhum deles, não conhecia a autora, e de antemão julguei que seriam livros feministas, pelo tema “mulher” entre os mais vendidos ..., no entanto, o livro é uma joia para quem souber apreciar belos tesouros. Como expresso a seguir:

A importância do papel da mãe (matriarca)


Do alto da maturidade dos seus 47 anos (idade em que escreveu o livro em 1992) a autora descreve com sua sabedoria de contadora de histórias a relevância de reconhecer o equilíbrio entre masculino e feminino para a psique humana, os perigos da maternidade da mulher imatura, que ela chama de mãe-criança ou mãe sem mãe, que é a mulher que cresceu sem a presença materna com todas as funções que se espera de uma mãe.

O livro alerta da fragilidade da mulher que dá à luz sozinha, sem a figura do pai, e por isso tem o seu próprio papel de mãe prejudicado no desenvolvimento da própria psique e da psique dos filhos. O que perpetua pessoas com baixa capacidade instintiva, pressentimentos ingênuos, ou pouco desconfiômetro para prever situações de risco.

É inegável que gerações passadas de homens e mulheres, em especial a feminina, possuía muito mais expertise para prever perigos, identificar pessoas não confiáveis, ou mesmo pressentir quando algo não ia bem com alguém próximo. Nada disso era movido pelo acaso. Eram situações que sua condição externa proporcionava, permitindo à mente ficar mais alerta aos instintos, enquanto o pai ou marido cuidavam do ganha-pão.

Embora danosa, a deficiência causada por gerações de mães-sem-mãe, de corpo presente, mas ocupadas demais para cuidar da construção psicológica dos filhos, apesar de crescidos submersos por estímulos de terceiros (escola, TV, internet, amigos, padrastos, avós, tias etc.) nada disso é impossível de desfazer, apesar de exigir um certo esforço de autoconhecimento.


A importância das atividades domésticas


“Todas essas ações ligadas às ‘prendas domésticas’, cozinhar, lavar, varrer, significam algo além do rotineiro. Todas essas imagens sugerem modos de se pensar na vida da alma, de avaliá-la, alimentá-la, nutri-la, corrigi-la, purificá-la e organizá-la.”

Mais que um estorvo rotineiro, que muitas lutam por impor como obrigação compartilhada, e outras com sucesso já deixaram a atividade exclusivamente para os homens, as ações domésticas segundo a autora têm seu valor simbólico. Têm efeito de organização e limpeza mental. Durante a ação liberamos muitas substâncias no organismo que auxiliam na organização da psique.

Quem já não ouviu falar que o ambiente reflete nosso estado interno? Quem nunca percebeu que uma preguiça sobrenatural de arrumar o guarda-roupa era um reflexo de um desânimo causado por outros problemas? Ou quem não se sentiu mais leve após completar uma faxina que vinha sendo adiada há semanas?

Será que essa luta para que o homem contribua com as atividades domésticas, é só uma questão de equalizar direitos, ou reflete o medo de se encarar, avaliar, organizar, e nutrir a psique sedenta de atenção?

Poucos hábitos das matriarcas não tinham razão de ser. Pode ser que elas não tivessem essa consciência dos porquês. Mas não há nada mais pernicioso que lutar por romper padrões sem ter consciência de sua utilidade, só porque acham que está ultrapassado para os tempos modernos.


O perigo da relação sexual casual


Segundo Clarissa Pinkola, a doação do corpo deve ser uma das últimas fases do amor. Quando a relação começa pela fase carnal, fica mais complicado construir alicerces na relação, porque o ego do prazer precisa ser afastado à força do seu interesse carnal. É difícil perceber o real caminho em que estamos quando afetados pelo prazer.

Ela ainda explica, de forma interessante, que “fazer amor é fundir a respiração e a carne, o espírito e a matéria. Um se encaixa no outro. Existe um vínculo imortal de alma para alma que mal conseguimos descrever, ou talvez que mal consigamos decidir, mas que vivenciamos em profundidade.”

Para quem é cristão, é fácil entender o que acontece numa relação sexual, mesmo antes de experimentá-la. Mas independentemente da fé, esse é o relato de uma psicanalista, explicando o efeito do sexo no self profundo da psique humana. Convém, não banalizar essas relações. Não adianta considerar apenas “meu corpo, minhas regras” e negligenciar os efeitos dessas regras na mente.

É extremamente vantajoso deixar a experiência corpo-a-corpo chegar na hora certa. Com uma relação estruturada, de cooperação, onde ambos estejam conscientes do que pretendem e da influência que têm sobre a alma do outro. Por mais simples e banal que possa parecer, há uma troca na relação sexual que faz com que percamos muito ao se doar para quem não está comprometido em cuidar do reino da psique feminina.

Um companheiro deve ser escolhido pelo profundo anseio da alma. “Escolher só porque algo apetitoso está à sua frente não irá satisfazer nunca a fome do Self da alma. É para isso que serve a intuição. Ela é a mensageira da alma”. É essa união de almas que sobrevive na fartura ou na pobreza, que passa pelos momentos mais simples e mais complicados. É a união de poderes das duas almas num único indivíduo.

TPM: ausência de criatividade e de solidão positiva


Pela sua experiência como analista de mulheres, a autora afirma que a TPM que atinge grande parte da mulher moderna, não é apenas uma síndrome física, mas um sintoma da mulher frustrada, que não tem tempo suficiente para se revitalizar e se renovar. Elas se veem bloqueadas pelo excesso de trabalho, de lazer, pela fadiga ou pelo receio de fracassar, ou perturbadas por casos de “amor”.

A mulher precisa deixar temporariamente o mundo, se permitindo a solidão, estar-se inteira para si, sentir sua essência. O que é diferente de fugir e sair de férias sem os filhos depois da pandemia, como já ouvi histórias de algumas mulheres. 

É preciso um tempo para se dedicar a si, olhar para o mais íntimo e permitir se inspirar, se concentrar, se organizar, e criar coisas úteis. Quanto mais criativa, e consciente de si mesmo, menos necessidade o organismo tem de reagir negativamente aos hormônios do ciclo natural da menstruação. 

A importância da arte na manutenção e restauração da mulher


Poesia, pintura, canto, qualquer tipo de arte, segundo o livro têm o poder de restaurar e aproximar a mulher do núcleo instintivo da psique. Por experiência própria, os períodos em que mais estive desconectada de mim mesmo, sem consciência das funções da minha mente, foram os períodos de secura criativa.

O inverso também vale. Saí várias vezes do lamaçal da depressão por meio da criação de textos. Tive um período curto em criei artesanatos também. Bloqueios criativos, geralmente são reflexos de bloqueios psicológicos, como medo da rejeição, medo de dizer o que se sabe, a preocupação com a própria competência, entre outras coisas.

O fluxo de criatividade se libera quanto mais nos conectamos à nossa verdade, nossa fé, nossa essência. Quando rompemos com o ciclo vicioso do ego, de olhar demais para a imagem que representamos para os outros, e passamos a olhar quem somos, ou quem Deus quer que sejamos, que está implícito nos dons que ele nos dá, nas circunstâncias na qual ele nos coloca. 

Citações 


"O arquétipo da Mulher Selvagem, bem como tudo o que está por trás dele, é o benfeitor de todas as pintoras, escritoras, escultoras, dançarinas, pensadoras, rezadeiras, de todas as que procuram e as que encontram, pois elas todas se dedicam a inventar, e essa é a principal ocupação da Mulher Selvagem. Como toda arte, ela é visceral, não cerebral. Ela sabe rastrear e correr, convocar e repelir. Ela sabe sentir, disfarçar e amar profundamente. Ela é intuitiva, típica e normativa. Ela é totalmente essencial à saúde mental e espiritual da mulher."

"A melhor atitude para vivenciar o inconsciente profundo é a do fascínio sem exagero ou retraído, sem excessos de admiração ou de cinismo; com coragem, sim, mas sem imprudência".

"Fazer a pergunta certa é o ponto central da transformação — nos contos de fadas, na psicanálise e na individuação."

"A mulher sábia mantém seu ambiente psíquico organizado. Ela consegue isso mantendo a cabeça limpa, mantendo um local limpo para seu trabalho e se dedicando a completar suas idéias e projetos."

"Será que um aspecto negativo da psique pode ser reduzido a cinzas só por ser alvo de observação constante? Pode. Pode, sim. Mantê-lo sob o olhar inflexível do consciente pode fazer com que se desidrate".

"Em vez de conversar sobre o problema, as pessoas preferem "dar um tempo". É uma versão adulta de "o cachorro comeu meu trabalho de casa" ou "minha avó morreu..." pela quinta vez".

Fico feliz que as obras de Clarissa Pinkola Estes estejam entre as mais vendidas. Espero que quem comprou tenha feito bom proveito da leitura, e tenha compreendido e resgatado o sentido da mulher selvagem, da mulher natural, com os dons e habilidades com as quais foram criadas e que se perpetuam e alimentam pelos costumes e atividades que a natureza feminina tem mais afinidade e aptidão. 


sábado, 5 de setembro de 2020

A Ciranda das Mulheres Sábias


"Jovens enquanto velhas, e velhas enquanto jovens para todo o sempre".

Não conhecia a escritora Clarissa Pinkola Estés até ver dois de seus livros entre os top 10 da Amazon. A Ciranda das Mulheres Sábias teve sua primeira edição no ano de 2007 e continue entre os mais vendidos.

Com texto ritmado, quase uma ode às avós, o livro descreve uma vasta referência nas mitologias sobre a importância das senhoras de idade, anciãs. Mas frisa de forma inteligente, que a sabedoria se alcança aos poucos ao longo da vida, de acordo com as experiências da alma e do espírito, mais que as do corpo. Não tem muito a ver com a idade, no entanto, mas com a habilidade de aprender com a vida.

A Leitora

Tendo descoberto essa leitura por acaso fiquei curiosa para entender como seria a fusão de uma poetisa com uma psicanalista, que, a propósito, descobri que tem muito mais coisas em comum que jamais imaginei… Nesse livro a autora foi de uma sensibilidade ímpar, o poeta mesmo quando não escreve em versos, deixa na suas linhas escritas um pouco de poesia, e não é a vida, ela própria uma poesia?


A Autora

Clarissa Pikola Estés é americana, nascida em 1945. Psicanalista junguiana e poetisa, tem uma notável visão da importância da psique e sua relação com a alma e o espírito, bem distintas na percepção da autora. Poucas pessoas conseguem apreender a distinção desses dois princípios que formam o ser humano. E por tão pouco entendê-los, muitos valorizam demais o corpo, que é a terceira parte que nos forma como humanos.

A Obra

A Ciranda das Mulheres Sábias aborda a sabedoria passada de mulher para mulher, de mãe para filha, de filha para netas. A tradição. Aquelas memórias tão ternas que temos das avós, ou tias que são avós ainda que não sejamos nós as netas. Infelizmente não cheguei a conhecer minhas avós. A materna faleceu quando eu tinha 1 ano de idade, e a paterna não faço a mais remota ideia sobre seu destino. Entretanto, tenho tias, irmãs de minha mãe, que possuem netos que são mais velhos em idade que eu... consigo traçar com elas um paralelo de como seria minha avó materna.

De fato as mães da geração da minha parecem ser uma das últimas avós as quais são retratadas no livro. Daquelas que ainda guardam algum tipo de sabedoria passada pelas mães, e que não tomam decisões só com base na “ciência” ou nos costumes modernos. Se só de ciência vivessem as avós, o ser humano já estava extinto. Quem já não tomou um chá de ervas para dor de barriga, dor de cabeça, dor de garganta, tosse, ou o que quer que fosse? Acaso essa senhoras sábias possuíam esse conhecimento de algum tratado científico ou era sabedoria passada de geração para geração?

Se alguém toma um remédio e ele cura, pouco importa se a ciência valida aquela experiência ou não. O importante é que o mal foi sarado. Quantas vidas se perdem por conta dessa fissura científica, quando às vezes precisamos daquela ação matreira da mães-avós de achar uma solução paliativa até que os entendidos encontrem a definitiva. A sabedoria popular foi o que permitiu que mulheres virassem títulos dessa obra.

Citações

O principal imperativo da mulher sábia é viver para que outros também se inspirem. Viver do nosso próprio jeito vibrante para que outros aprendam conosco”.


Não significa porém que seja uma pretensão da mulher sábia o querer ensinar os outros. É quase uma consequência natural. Conviver com a sabedoria de certas mulheres, para quem tem bom senso, é uma grande escola, ainda que elas não tenham nenhuma intenção de arvorar-se professoras de determinado assunto.

Os príncipes são bons. Os príncipes podem ser excelentes. Mas, com freqüência, nos mitos, é a velha que tem algo de realmente bom a dar.


Um bom príncipe é sempre filho de uma boa rainha.


Sempre se lembre de estar conectada à alma, se for visão e força o que deseja,

... e de estar conectada ao espírito, se for energia e determinação que necessitar para agir pelo seu próprio bem e pelo mundo.

... e, se for sabedoria o que quiser, que você sempre una o espírito à alma, ou seja, una a ação à paixão, a ousadia à sabedoria, a energia à profundidade.



O corpo é um coadjuvante no teatro da sabedoria. Diz os provérbios “quando a sabedoria entrar no teu coração, e o conhecimento for agradável à tua alma, o bom siso te guardará e a inteligência te conservará. A formosura do tolo é perdição.

Podemos saber, mas não sabemos dizer com muita precisão onde e como tudo isso ocorre. A poesia faz-se necessária para explicar a força vital de uma mulher: a dança, a pintura, a escultura, os ofícios do tear e da terra, o teatro, os adornos pessoais, as invenções, escritos apaixonados, estudo em livros e nos nossos sonhos, conversas com outras que sejam sábias, o atento intuir, refletir, sentir e pressentir… criações e realizações de todos os tipos são necessárias ... pois existem certos assuntos místicos que as palavras concretas isoladas não conseguem expressar, mas que as ciências, contemplações do que é invisível porém palpável, e as artes conseguem.”


A poesia é uma forma de expressão da sabedoria oculta na alma da poetisa que sofre.


As funções das velhas, consistem em moldar novas tradições e preservar as antigas. E, ao fazê-lo, ensinar e testar a força das jovens. Nas nossas famílias, as velhas deixavam claro que, por trás de cada tradição, de cada prova, havia uma excelente razão, uma razão da alma.


Conservar e sabedoria, as tradições dos nossas queridas anciãs é ter em estoque as razões de todas as almas já vividas da nossa linhagem, que já passaram por situações semelhantes e deixaram seu legado de forma simbólica e prudente. Não tem porque rejeitar a sabedoria dos antepassados. O tolo rejeita a sabedoria. E não ficará impune. As consequências virão, cedo ou tarde.


Prece de Gratidão nº 07 (trecho)

"Por todas as filhas inteligentes, desconhecedoras, sem rumo e pelas que tudo sabem... Pelas filhas que estão avançando direto ou que prosseguem aos trancos...

Pelas que estão aprendendo a chorar novamente...

Pelas que estão aprendendo a gargalhar...

Por todas elas, não importa se estão saudáveis, curadas ou não, não importa de que classe, clã, oceano ou estrela...

Por todas as filhas que um dia ouviram por acaso o conselho de uma sábia destinado a outros ouvidos, mas essas "palavras certas na hora certa" causaram uma centelha que iluminou seu mundo daquele momento em diante para sempre...

Por todas as filhas que ouviram a sabedoria, não a entenderam, mas a guardaram para o dia em que conseguissem compreender…

Pelas filhas que remam sozinhas e cujas antepassadas escolhidas foram por necessidade encontradas em livros queridos, em imagens norteadoras captadas no cinema, na pintura, na escultura, na música e na dança...

Pelas filhas que estão aprendendo a escutar a velha sábia da psique, aquela estranha sensação interior de nítida percepção, de audição, noção e ação intuitivas…

Por elas... abençoadas sejam suas belezas, tristezas e buscas; que sempre se lembrem de que perguntas ficam sem resposta, até que sejam consultados os dois modos de enxergar: o linear e o interior."


Prece de Gratidão nº 09 (trecho)


"Protejamos aquelas artes, idéias e esperanças que não podemos permitir que desapareçam da face desta terra. Por tudo isso, que vivamos muito, e nos amemos uns aos outros, jovens enquanto velhas, e velhas enquanto jovens para todo o sempre."

Amém