sábado, 15 de maio de 2010

Música ao Longe


Música ao Longe de Érico Veríssimo, foi o primeiro livro que li na vida. Lembro-me bem, eu tinha 8 anos, recém alfabetizada, me vi diante daquela brochura, de páginas amareladas (de fábrica), com 195 páginas, que parecia de uma espessura enorme! Para mim naquela época era algo equivalente ao "O Código da Vinci" de Dan Brown!

No entanto eu cresci, mas parece que foi o livro que encolheu! Eu leio-o em minutos, até porque já sei o enredo de trás para frente. E é aí que eu queria chegar: no enredo. Na verdade, quero tratar dos pormenores do enredo, que fala da decadência rural, e da consequente falência dos laços familiares e de amizades. Resumindo, quem era amigo deixou de ser, ou virou inimigo mesmo. Tudo por la plata! Tudo isso no cenário gaúcho, RS, terra do autor.

Mas é claro que não são estas as recordações que me ficaram da leitura de infância, aliás desde menina a mesma ideia me cerca: poesia, escola, e claro romance.  Talvez eu seja a última romântica... Lembro-me da primeira imagem do livro: Clarissa - a professora, fazendo um desenho no quadro-negro, e as crianças palpitando. Após desenhar uma vaca, o menino Terêncio se pronuncia: -"Fessora, faltam as mamicas!" - E Clarissa pede-lhe que tenha modos. Que cena pitoresca! Se falar sobre as "mamicas" de uma vaca fosse a falta de modos dos alunos contemporâneos, o mundo estava a salvo!

Aliás, Erico Veríssimo tem essa característica descritiva, fotografia minuciosa, que nos transporta para dentro da cena contada... Se bem que é um perigo ser transportado para dentro de determinados livros, como por exemplo a trilogia o Tempo e o Vento do mesmo autor, são anos de guerras! Periga no mínimo sairmos com arranhões das trincheiras... 

Voltando ao livro em questão, Clarissa é uma professora de 16 anos, que por não ter com quem falar, pela falta de amizades, escreve diários (ela adoraria a Era dos Blogs!), e gosta de ler poesias, certa vez frustrou-se ao descobrir que seu poeta favorito era um velho gorducho e não um galã de cinema. Era uma menina que idealizava as coisas, que convivia com os seus, mas gostava mais da realidade paralela que criara para si, onde permaneciam seus colegas de infância, que agora crescidos, se portavam como gente séria e mal olhavam-na na cara.

A personagem coadjuvante do livro é Vasco, apelidado Gato-do-mato pelo seu jeito rude, fugidio e orgulhoso de ser. Vasco é primo de Clarissa por parte de mãe, na verdade ele é filho de Zuzu, prima do pai de Clarissa. É curioso, porque Vasco com seu jeito comunista, porém sem pertencer a nenhum movimento da espécie, toma a trama para sí e faz com que torçamos por ele. Ele é um tipo de príncipe encantado às avessas e Clarissa a gata-borralheira. Pra quem tem um primo de mesma idade é comum torcer por um romance entre primos. Vasco é aquele tipo que fala a verdade na cara, mas que às vezes ultrapassa os limites da franqueza e torna-se grosseiro. Mas não é uma falha de caráter, é uma forma de se defender.

É uma outra marca de Erico, o uso da psicologia, ele pertence ao rol de Clarice Lispector, que usa a psicologia pra justificar suas personagens. Se bem que essa afirmação fica por conta dos críticos e estudiosos, dúvido que o autor tivesse um manual de Freud ao lado enquanto escrevia seus romances! Acho que era sabedoria, anos de vivência mesmo.

A personagem Clarissa, vem de um romance homônimo de 1933, Música ao Longe é de 1934, e não sei se estava nos planos do autor mas  Vasco roubou tanto a cena que ganhou um romance próprio, Um Lugar ao Sol (1936), rebaixando a jovem Clarissa ao papel de coadjuvante! (Não é só na novela Viver a Vida que a coadjuvante ganha mais destaque que a protagonista...)

E apesar de toda torcida, a mocinha não ficou com o mocinho no final! Em Música ao longe eles rasgaram uma seda recíproca, em Um Lugar ao Sol, alguns abraços, e apesar da forte paixão que sentia, o jovem não quis se prender. Uma vez Gato-do-mato, sempre Gato-do-mato! E nem posso dizer que isso só acontece em livros, por que eu sei que existem de fato bichos ruins que deixam mocinhas a ver navios.(...) No entanto, alguns anos depois Érico Veríssimo enfim realiza o casamento dos dois pombinhos em Saga (1940), mas este livro eu ainda não lí, então prefiro não comentar...

Post Scriptum:"O amor que ainda não se definiu é como uma melodia do desenho incerto. Deixa o coração a um tempo alegre e perturbado e tem o encanto fugidio e misterioso de uma música ao longe... "  32° ed. Pg. 30


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